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ENSAIO SOBRE A GORDURA
Ensaio sobre a Gordura, installation view, CAV - Centro de Artes Visuais, Coimbra (2022 PT)
Photo: Jorge Simões
M.4, 2021
Ed.3
Active ingredient:
Vrbenského bath / cca 1930s / copy / source: Collective Heimatfreunde Beetzendorf; Vrbesnkého bath: indoor pool / cca 1930s / copy / source: Pilař B., Špinka B.
Peeling:
Small brick fragments recovered from the demolished factory Setuza in Ústí nad Labem
Aroma:
Apple pie

Glycerin, pigment, aroma and mixed materials (2,5 x 5,2 X 7,8 cm)
Photo: Jorge Simões
M.9, 2021
Ed.3
Active ingredient:
Útok na pevnost: old advertising card with a board game; Advertisement to Schicht's Soap with the deer / original colour print
Peeling:
Sand recovered from the demolished Setuza factory in Ústí nad Labem
Aroma:
Peach

Glycerin, pigment, aroma and mixed materials (2,5 x 5,2 X 7,8 cm)
Photo: Jorge Simões
M.92, 2021
Ed.3
Active ingredient:
Active ingredient: Roots recovered from the demolished Setuza factory in Ústí nad Labem
Aroma:
Honey pie

Glycerin, pigment, aroma and mixed materials (2,5 x 5,2 X 7,8 cm)
Photo: Jorge Simões
M.97, 2021
Ed.1
Active ingredient:
Active ingredient: Medium sized fragments recovered from the demolished Setuza factory in Ústí nad Labem / Mixed materials
Aroma:
Soft wheat

Glycerin, pigment, aroma and mixed materials (2,5 x 5,2 X 7,8 cm)
Photo: Jorge Simões
M.20, 2021
Ed.1
Active ingredient:
Active ingredient: Plastic and metal fragments recovered from the demolished Setuza factory in Ústí nad Labem
Aroma:
Grape

Glycerin, pigment, aroma and mixed materials (2,5 x 5,2 X 7,8 cm)
Photo: Jorge Simões
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Numa das suas obras seminais, datada de 1995, Jacques Derrida desenvolve uma intrincada reflexão acerca daquilo a que chamou “febre do arquivo”. Esta decorre, segundo o autor, da necessidade humana de preservação, comummente associada à criação e contenção de processos mnemónicos, de recolecção de bens materiais e imateriais, atravessando dimensões temporais e espaciais e convocando para a sua realização inúmeras e diferenciadas áreas do conhecimento.
Profundamente assente na convocação de uma ideia de ordem, e simultaneamente num encontro com a experimentação e a subjectividade, o arquivo (e as suas práticas) permitem estabelecer um curioso cruzamento entre interesses públicos e privados, possibilitando a construção de uma ideia de passado e promovendo possibilidades de leitura e releitura da História.
Como espaço privilegiado para o exercício do pensamento especulativo (nas suas dimensões éticas, estéticas, políticas, sociais e culturais) o arquivo tem vindo, desde o final do século XX até aos nossos dias, a afirmar o seu lugar enquanto mecanismo conceptual no seio da arte contemporânea. Numa valorização do trabalho de investigação assente em pressupostos extra-académicos, inúmeros artistas têm vindo a desenvolver um interessante corpo de trabalho a partir de uma ideia de recolecção e preservação, de indexação e catalogação, num processo constantemente crítico de construção do presente a partir de registos do passado.
Ana de Almeida é um destes casos. Com um manifesto interesse pelas questões do arquivo e pelo uso de material documental – cruzando muitas vezes aspectos biográficos e aspectos historiográficos – tem produzido obras, de carácter instalativo, que cruzam o desenho, a escultura, a fotografia, o filme, o vídeo e o documento, e das quais sobressai um interesse particular pelo poder simultaneamente poético e político de determinados conteúdos implicados nos processos de construção da História.

A instalação apresentada agora no espaço Project Room do CAV, com o título “Ensaio sobre a Gordura”, dá continuidade ao seu longo processo de investigação e resulta de um período de residência desenvolvida pela artista na cidade de Ústí nad Labem, na República Checa. Ana de Almeida centrou a sua atenção sobre a actual ruína de um complexo fabril (inicialmente propriedade do conhecido industrial Johan Schicht e mais tarde nacionalizado dando origem à Fábrica de Gordura da Boémia do Norte – Setuza). Anteriormente apresentada na República Checa, a instalação foi agora alvo de um redesenho em função das características físicas da sala do Project Room, constituindo-se aqui da apresentação de nove suportes/expositores de aço (desenhados pela artista a partir de elementos estruturais industriais pré-existentes) que apresentam um total de noventa
sabonetes produzidos pela artista, numa reconversão doméstica dos processos de serialidade industrial.
Num momento de auto-responsabilização (sem precedentes) em que procuramos questionar criticamente os processos de construção e edificação da própria ideia de História através de uma revisão da ideia de memória colectiva e das práticas decorrentes da sua fixação, não podemos deixar de considerar a pertinência desta proposta à luz dos procedimentos críticos que lhe são intrínsecos.
Neste sentido, consideramos que o gesto arquivístico de Ana de Almeida propõe um interessante cruzamento entre a história do lugar e as pequenas estórias extraídas a partir dos inúmeros resíduos recolhidos (entre documentos administrativos, pequenos objectos, material orgânico, embalagens, etiquetas, artigos de jornal, entulho, matéria prima original, pigmentos, fotografias, informação técnica, publicidade e propaganda, ferramentas, etc), permitindo-lhes uma possibilidade de preservação, por oposição ao seu tendencial desaparecimento.
A atenção dada sobretudo às reverberações sociais produzidas pela estrutura fabril nos contextos extra-laborais (familiares, culturais, desportivos, políticos e de planeamento urbano) confere uma dimensão política clara ao gesto arquivístico ele mesmo. O arquivo enquanto símbolo de poder assente na responsabilidade que acarreta na definição de determinados temas como essenciais para a construção da História é uma das questões que concentra a atenção da artista. E aqui a proposta assenta justamente na possibilidade de elevação de materiais comuns ao estatuto de artefactos passíveis de significação, permitindo-lhes assumir a sua dimensão de agentes de construção social, política e cultural. No entanto, a ironia da escolha do sabonete confere à obra uma dimensão paradoxal: a glicerina que aprisiona e preserva – permitindo através da sua transparência o acesso visual aos conteúdos preservados – é simultaneamente agente da sua própria dissolução, sublinhando a condição impermanente do arquivo enquanto agente preservador. O acto expositivo constitui-se assim, simultaneamente, enquanto acto de revelação e de destruição. O tempo de duração da exposição determina o tempo possível de visibilidade permitido a estes materiais, mas condena-os simultaneamente à sua invisibilidade.


Text by Ana Anacleto, 2022
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